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Agudos, 22/09/2019, 20:17
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Discurso - Frei Gregório Johnscher, ofm
AGUDOS, NO ALVORECER

Eminentíssimo Sr. Cardeal - Arcebispo Emérito Dom Paulo Evaristo Arns. Ex.mo Sr. Bispo Diocesano Dom Aloysio Penna. Autoridades eclesiásticas e civis presentes. Caríssimo Confrades, Senhoras e Senhores. Estimados Seminaristas.

Cabe - me nesta noite falar sobre o alvorecer do Seminário de Agudos.

"No alvorecer do mundo, Deus cria a luz, nasce a primeira manhã..."

É o livro do alvorecer das origens, o Gênesis, primeiro do Pentateuco e da Escritura, que nos ensina.

"E Deus viu que tudo quanto havia feito estava bom" - e achou que era muito bom" a luz " a luz brilhou, apareceram os luzeiros no firmamento do céu, sinal para marcar as festas e os dias e os anos, signo para iluminar a terra, a nova terra da alvorada. Alvorada, o crepúsculo da manhã, o alvor, onde logo se ouvira o canto das aves amanhecendo, um mundo novo despertando.

Senhoras e Senhores, o que esperam seus ouvidos atentos e corações quais sulcos abertos a ricas sementes ?

Vou falar-lhes, do Seminário Santo Antônio Cinqüentenário, história nas mãos, vou falar-lhes de "Agudos no alvorecer".

Muitos e lindos são os diferentes alvoreceres, que poderíamos fotografar.

Ofereço-lhes alguns retratos apenas, por partes.

l. O ALVORECER HISTÓRICO

Na noite de 1º de fevereiro de 1950, a estação da Sorocabana de Agudos vibrava jubilosa, Depois de 40 horas de viagem de trem, desde o venerável Seminário São Luiz de Tolosa, do Rio Negro, PR, chegavam os primeiros 79 seminaristas, da 8ªa série Fundamental ao 3º ano do ensino Médio, junto com os frades pioneiros. Seus nomes estão registrados nas crônicas; eram 9 Professores e 7 Irmãos Religiosos. "O povo, apinhado ao redor da estação, soltou foguetes, o Prefeito Municipal Padre João Batista de Aquino, sentiu-se honrado com o novo passo à frente que seu município dava, vindo a possuir agora um grande Seminário." - Testemunha-o o primeiro professor de Português Frei Vítor M. Wiltgen na revista Eco Seráfico.

Os seminaristas também desde logo sentiram-se bem e cantavam o hino, trazido do Rio Negro, da autoria do Frade poeta Frei Belarmino Lopes:

"Nós desdobramos nossa alma à vida
Como no Infinito se desdobra a flor.
Nossa existência passa resumida
Em sermos filhos benjamins do Amor."

Esta viagem histórica abre novas páginas na história das vocações franciscanas em nossa Província. Durante a II guerra Mundial em 1943, nosso Colégio Missionário de vocações para o Brasil, em Garnstoch, na Bélgica foi fechado; com isso as vocações brasileiras começaram a crescer e para a abriga-los foi preciso um seminário maior. Graças a Deus em 1947 ia nascendo um novo Seminário no terreno de café e bambuzal, da Fazenda Santo Antônio, na "Açucena da Serra", isto é, na cidade de são Paulo dos Agudos, distante de Bauru 25 km e de São Paulo 330 km. O sonho alvorecia real com o início da construção do Seminário e Convento em estilo neo-colonial, concebido pelo engenheiro - arquiteto Dr. Joaquim Bezerra da Silva e executado pelos valentes operários das primeiras horas Frei Ludovico Gomes de Castro e Frei Heliodoro Müller, Provincial e Frei Rufino Ueter.

"A Educação é obra do Coração" - dizia inspiradamente Dom Bosco e Agudos, no alvorecer histórico, eloqüente o comprova.

2. O ALVORECER CULTURAL

"O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas."

São versos de Carlos Drummond. Transponho-os aos primeiros tempos de Agudos. O Seminário do Rio Negro que completou 25 anos de vida em 1948, viveu e vivia fortes momentos culturais. O novo, no areião de Agudos, iniciava na estaca zero. Os Frades Professores pioneiros, deram-se as mãos e deram-nas aos alunos, também pioneiros. Aulas competentes em salas ainda cheirando a tinta fresca, em novo método entre andaimes, e peripatéticas, pisando na areia, ao lado das samambaias. Com rara felicidade improvisaram-se biblioteca e salas especiais de Física e Química - com Frei Onésimo Dreyer e Frei Álvaro Machado; a velha tribuna da Academia Antoniana ouve discursos caprichados sob a magistral orientação de Frei Vítor M. Wiltgen; sons de banda e orquestra ecoam pelas novas galerias, vozes do coral sob regência afinada de Frei Hildebrando Hafkemeyer. Foi um presente novo, realmente grande.

Cito-lhes três momentos especiais do alvorecer cultural, daquela época.

1º Apresentação do "Poema da Virgem", de Anchieta.

Encenou-se e declamou-se a parte do canto do poema "De Beata Virgine Dei Marte Maria". Anchieta compôs os 2893 dísticos do hexâmetro e pentâmetro clássico, quando foi refém dos índios de Iperoíg a 155 km nordeste de Santos, a atual Ubatuba, de 5 de maio a 14 de setembro de 1563.

"Falar ou emudecer ?
Contar ou calar ?
Mãe Santíssima de Jesus,
Os teus louvores
Hei de os contar ou hei de os calar ?"

Os versos fluíram no primeiro "salão nobre", que era o refeitório, textos em Português e alguns em Latim do primeiro humanista da América, na voz do "Seminarista" Valmor Cattoni.

2º A apresentação do "Auto da Alma" de Gil Vicente (1405-1537)

1950 era ano Santo. O Papa Pio XII compôs a oração do jubileu destacando "o ano do grande retorno e do grande perdão".

Inspiradamente, Frei Vítor M. Wiltgen e o primeiro Presidente da Academia Antoniana, José Salvador Piccolo (Frei Agostinho), escolheram a peça, "Auto da Alma", do poeta, dramaturgo e criador do teatro português, de 1518, crepúsculo da Idade Média, respirando auras do Renascimento. E o Palco ? Seria a escadaria da 1ª ala. O Auto da Alma propõe o caminho da salvação, uma antecipação das vozes que se proclamam no Concílio de Trento (1544 - 1563), a renovação interna da Igreja e da pessoa.

3º A apresentação de Frei Mojica.

José Mojica foi um notável cantor artista de Hollywood. Teve uma carreira brilhante. Certamente "por inspiração divina", abandona tudo e ingressa na Ordem dos Frades Menores. Humilde, apontando de olhos fechados para um mapa-múndi, pede confiadamente para ir às missões, e aparece na cidadezinha de Cuzco, no Peru, tinha renunciado ao mundo. O Papa Pio XII, porem num gesto profético, arranca-o do esconderijo e envia-o a ir pelo mundo, para continuar a cantar, mas agora, anunciado a boa-nova, semeando a paz e o bem. "Os dons de Deus não se enterram" - diz o Papa - "precisam servir à evangelização".

Frei José Francisco de Guadalupe Mojica, vem, em 1950, ao Brasil e inaugura a TV Tupi que foi o primeiro canal do País. Convidado pelo nosso Ministro Provincial, visita o Seminário, brindando-nos com um maravilhoso show e doando-nos um grande quadro de Nossa Senhora de Guadalupe (no saguão da 2ª ala). À noite, o refeitório ficou pequeno para acolher-nos a nós e ao público que ocorreu de Agudos e das cidades vizinhas. Foi um jogral de Deus a enfeitar o alvorecer cultural de Agudos. "Nós somos jograis de Deus", - diz o Espelho da Perfeição "- que devemos elevar o coração das pessoas e levá-las à alegria espiritual".

3. O ALVORECER SÓCIO - ESPORTIVO.

O terceiro alvorecer no céu de Agudos - 50 desenha as nuances do sócio - esportivo.

Quem não recorda o verso do escritor latino Juvenal: "Orandum est,ut sit Mens sana in corpore sano ?" "Deve-se pedir que haja uma mente sã em um corpo sadiu".

Nos campos e pistas do velho Seminário marcas várias de atletismo - se homologadas - bateriam recordes de Paraná e Santa Catarina. Competições anteriores mais ásperas de "Schlackball" e violentas "queimadas" haviam cedido espaço a elegantes exibições de ginástica rítmica, saltos de alturas e com vara e, principalmente, ao vôlei e basquetebol. Alunos novos de São Paulo e do Rio, um até tricampeão colegial, elevaram o nível do esporte e socializaram a vida interna dos "seráficos" - como dizíamos.

Prova é que, só um mês de novo Seminário, implantavam-se no areião quadras de vôlei e basquete. Foram méritos destacados do primeiro "Padre Prefeito", o sempre enaltecido Orientador Educacional Frei Tadeu Hoennighausen. Era um incentivados notável, vitorioso, e mais paradoxalmente, porque ele mesmo, com seus óculos fortes "fundo de garrafa", constituía negação pessoal em esporte. Já pelo meio do ano, gramava-se um campo de futebol, que, se não rivalizava com o gigante maracanã do Rio, nascido no mesmo 1950 do Campeonato Mundial no Brasil, ao menos oferecia bons joquinhos nas tardes de domingo, que atraíam, depois, pessoal das fazendas Santo Antônio e vizinhas e, mais tarde, socializando o esporte com equipes de Agudos e outros municípios, ampliando também o apreço ao Seminário, revelando outros traços simpáticos dos Seminaristas e Frades, esportistas de categoria e fibra, bons de bola e nos de espírito.

4. O ALVORECER RELIGIOSO - EVANGELIZADOR

Ecovo, neste momento, o quarto matiz na aurora de Agudos, o alvorecer religioso evangelizador.

" Foi uma bonita festa a da benção e inauguração do Seminário, nos dias 19 e 20 de fevereiro de 1950" - observa o cronista Frei Vítor. Com a presença do Ministro Provincial Frei Ludovico Gomes de Castro, representado pelo Vice Frei Heliodoro Müller; o pároco Mons. José Maria Paes o engenheiro arquiteto Dr. Joaquim Bezerra; o médico local Dr. Vicente Damante, o baluarte mestre - de - obras da construção, Sr. Armando Carrara; quase todos os colonos das 30 e poucas famílias da fazenda, com o administrador Frei Virgílio Berri, e muitas outras pessoas.

Dom Henrique Golland Trindade, bispo e depois arcebispo de Botucatu, percorreu toda a casa, invocando a bênção - presença de Deus. A chuva forte, que entrava pelos corredores, misturava-se à água da aspersão... Ao final, sempre feliz em suas alocuções, Dom Henrique falou da graça e da honra do Seminário Franciscano de Agudos para a diocese.

1950 celebrava o ano Santo. O ano do "grande retorno e perdão" - como se rezava na oração do jubileu. Mais: cresciam votos e preces pela promulgação do dogma da Assunção de Maria.

Na Carta Circular "deiparae Virginis Mariae" de 1º de maio de 1946, escrevia o Papa Pio XII: "Desejamos vivamente conhecer se julgais, segundo a vossa sabedoria e prudência, que a Assunção corporal da Bem-aventurada Virgem Maria pode ser proposta e definida e se o desejais ansiosamente com o vosso clero e o povo".

Diariamente recitávamos a prece - pedido em comunhão com a Igreja Universal na saudosa capela. A primeira capela, antes do museu, foi a atual sala de estar da 1ª Ala. Genuflexórios, as caixinhas de cerâmica forradas com papel manilha; as cadeiras, tradicionais, marca Cimo; o altar, simples, com a imagem de Santo Antônio. Encerávamos o chão com capricho e enfeitávamos a capela com flores que Frei Cipriano Chardon, o primeiro Reitor, trazia da cidade. O povo as oferecia, junto com abacates dos seus quintais para nossa mesa. Alvorecer singelo, simpático, saudoso...

A liturgia contava com um mestre: Frei Tadeu, na preparação diária, as conferências semanais com os então clássicos O Ano Cristão de Pius Parsh, e Der Herr de Romano Guardini, e as celebrações piedosas.

A Ordem Terceira (OFS -m Ordem franciscana Secular) serviu de precoce postulantado. Ofício diário, conferências sistemáticas, ofício parvo de Nossa Senhora aos domingos de manhã, leituras e estudos pessoais de Franciscanismo despertavam para os ideais do "Sol de Assis", Francisco, segundo Dante. Aliás, Os Ideais de São Francisco de Assis, do Capuchinho Dom Frei Hilarino Felder, obra de valor, circulavam freqüentemente nas mãos dos Terceiros, que eram maioria entre os Seminaristas.

Em fins de semana, espontaneamente e a chamado, os Confrades Professores colaboravam zelosamente na evangelização de paróquias vizinhas, catequizando, pregando, celebrando o perdão e a eucaristia, semeando Paz e Bem. Notável tornou-se desde logo a presença em Pederneiras, do venerável Padre José Montezuma.

O alvorecer religioso ascendeu, remontou ao céu, culminou no dia 1º de novembro: no Seminário, inaugura-se a capela do Convento, com adoração, procissão e Eucaristia Solene. No Vaticano, o Sumo Pontífice Pio XII pronuncia, declara e define ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi elevado em corpo e alma ao céu.

Magnificat !

Fecit magna qui potens est...

Epílogo

Eis, Famílias de Amigos e Amigos do Seminário Santo Antônio, eis Agudos no alvorecer, eis os alvorecer histórico, cultural, sócio, esportivo, religioso e evangelizador. Outros, com nomes e reverência, poderíamos ampliar.

Hoje, Agudos é unanimidade querida na Província da Imaculada e além, uma grande e amada Porciúncula.

Saudamos e reverenciamos Agudos no alvorecer: Salve !

Ave !

Hosanna !

Peroração

De Roma, em 25 de janeiro de 1950, o Ministro Geral da Ordem Franciscana, Frei Pacífico Maria Perantoni, escreve simpaticamente à Província:

"Abençoamos, com toda a efusão do nosso coração, aos Superiores que idearam esta obra, aos benfeitores que generosamente concorreram para a sua realização: mas especialmente abençoamos aos colegiais particularmente caros ao nosso coração para que possam progredir sempre mais na piedade e no saber, para depois serem ardentes filhos e generosos sequazes do Pai São Francisco".

De Assis, outubro de 1226, o Patriarca Francisco, por sua vez, no sonho santo de Profeta e Santo, prestes a voar ao Pai e Criador, carinhosamente abre lábios e coração ao presente e ao futuro, e fala com amor:

"Filhos todos,
permaneçam sempre
no amor do Senhor.
Vou com confiança
para a casa do Senhor,
porque O servi com devoção.
Eu os abençôo a todos,
os presentes, os que estão por todo o mundo,
e os que virão até o fim dos tempos".

Seminário de Agudos, No Alvorecer e no Cinqüentenário, seja abençoado !

"E Deus viu que tudo quanto havia feito estava bom, achou tudo muito bom..."

ELABORADA POR FREI AGOSTINHO ALVADOR PICCOLO,OFM
APRESENTADO POR FREI GREGÓRIO JOHNSCHER, OFM
11 DE SETEMBRO DE 1999.


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